Outro dia vi um
desses compartilhamentos de Facebook atribuindo a Paulo Francis a citação “quem
acredita em astrologia só pode ter mingau na cabeça”, ou algo assim. A frase
não me ofendeu em nada. Primeiro, porque eu não acredito em astrologia, assim como não acredito na medicina. Não sou um homem de fé. Fé é uma coisa complicada,
que geralmente leva a desastres psíquicos, espirituais e sociais. Tenho minhas
ressalvas contra a fé. Procuro acreditar apenas naquilo em que acho que devo acreditar para fins de criação
mental (ou seja, para projetar o futuro desejado através de formas-pensamento
que abram caminho para atitudes concretas). Mas, para não cair em mistificações,
evito acreditar em coisas externas a mim. O que não significa necessariamente desacreditar — sou agnóstico, afinal — e
sim que nada funciona comigo que dependa de fé cega. Naturalmente tenho cá
minha simpatias e antipatias, mas procuro ficar atento para não afetar meu
julgamento favorecendo aquilo com que simpatizo, e nem desfavorecendo aquilo
com que antipatizo. Como era de se esperar, raramente tenho sucesso nesse
projeto que poderia ser batizado de Imparcialidade Radical, mas vamos em
frente.
Voltando à
frase atribuída a Paulo Francis, ela não me ofendeu enquanto estudioso e
praticante de numerologia, tarô e ocultismo em geral, mas serve de estopim para
uma discussão sobre até que ponto utilizar técnicas não-científicas (no sentido
cartesiano do termo) implica negar a ciência ou afirmar superstições. A citação
se desqualifica já de cara ao ser atribuída a uma criatura execrável como Paulo
Francis. Não ficarei surpreso se ele for de fato autor da frase. Mingau na
cabeça tem quem acredita em Paulo Francis, porque né? Trata-se de um dos
jornalistas mais caluniadores de que se tem notícia no “grande” jornalismo
brasileiro — jornalismo esse que diminui de tamanho sempre que alguém o relaciona
a um marrom como Francis, sujeito que, além de grosseiro, faltava tanto com a
verdade que se acreditava relevante. Quer saber uma das várias razões de eu ter
Francis em tão baixa conta? É só dar um Google “Paulo Francis” + “Tônia
Carrero” para ter um indigesto tira-gosto.
Bem, acho
razoável concluir que é necessário ter mingau na cabeça para acreditar em qualquer coisa que não
ofereça motivos concretos para que nela se acredite, e acreditar no que se comprova na prática é constatação, não crença. É possível crer em algo real ou em algo irreal — é
possível acreditar em fantasias. Mas vamos combinar que constatar significa, de acordo com o dicionário, “determinar ou
confirmar a veracidade de (fato, afirmação etc.); averiguar, testificar”.
Então posso
dizer que eu não acredito em
astrologia. Não acredito em
numerologia, não acredito em tarô.
Não acredito em voar de avião. Aliás,
acho inacreditável voar de avião. Mas
a gente voa de avião, é fato, ainda que inacreditável. Da mesma forma, a
astrologia funciona. A numerologia funciona. E o tarô também. Claro que funcionar pode ser subjetivo. Funciona
para quê? Funciona para apontar questões, para sugerir maneiras e facilitar o
autoconhecimento. Achou muito vago para ter alguma relação com motivos concretos? É, então vou dar um exemplo
real e recente.
Sou carioca,
morei no Rio quando bebê, quando adolescente e a partir dos 31 anos (estou com quarenta e quatro, apesar de
agora ver nas redes sociais sujeitos que costumavam ser dez anos mais velhos jurando
não ter mais de 38 com suas caras de empada de botox). Morei também em
Teresina, passei duas temporadas longas em Nova York e acabo de me mudar para
Teresópolis, cidade da serra fluminense. Eu jamais gostei do Rio de Janeiro,
jamais me adaptei ao espírito da cidade por “n” razões que não vamos discutir
agora. A verdade é que a cidade me fazia mal, mas eu acabava “tendo” que morar
nela, pois sou casado, e o Alessandro sempre trabalhou no Rio. Por razões que
também não interessam a este post, finalmente resolvi que havia chegado a hora
de subir a serra, e Alessandro concordou. O impulso que eu sentia era forte,
algo dentro de mim estava me empurrando para sair do Rio de Janeiro. Porque
chega, né? Não dava mais para ficar destilando chororô de chorume ad infinitum, ficou fisicamente
impossível aguentar meu desagrado para com a cidade maravilhosa, cheia de
encantos mil na puta que pariu, que eu jamais os vi.
E o que isso
tem a ver com acreditar ou constatar whatever the hell about astrologia, numerologia etc.?
Bem, eu
naturalmente consulto meu mapa numerológico — tanto o mapa natal quanto o mapa anual, que se faz voltado
para um ano em questão. E também jogo tarô. Desde agosto do ano passado (2012)
estou vivendo um ano pessoal 6, que se estenderá até agosto deste ano (2013). O
ano pessoal 6 sugere o surgimento de questões familiares (no comments), questões de saúde relacionadas a fundo
emocional/psicossomático (de setembro do ano passado a janeiro deste ano
ressurgiram alergias e asma que eu não tinha desde criança — já devidamente
controladas, thank you very much, e
seguramente despertadas por fatores psicológicos) e questões relativas à
moradia (eu estava me sentindo sufocado no imóvel e na cidade em que morava, e durante o ano 6 me mudei para
outra cidade).
Antes disso,
vivi um ano 5, que implica uma série de coisas que são particulares demais para
comentar aqui, mas confirmam o simbolismo do número. E isso acontece sempre, os
acontecimentos parecem evoluir em sincronia com a evolução do meu mapa
numerológico. E acho que é exatamente isso que faz o mapa numerológico (ou
astrológico): reflete quem somos e o
que nos ocorre. Estudar o mapa ajuda a compreender o momento evolutivo de cada
um e suas interações com o ambiente e outras pessoas e seres.
Meu próximo ano
será regido pelo número 7, e neste aspecto estou interagindo com meu mapa,
“jogando” com ele, pois Teresópolis é uma cidade que combina com muitos
aspectos do simbolismo de 7. Aqui posso me concentrar mais em minhas criações
musicais e literárias, em minhas traduções, e mesmo assim estou a menos de duas
horas do Rio e do aeroporto internacional
— não muito diferente de quando eu morava em Niterói, tirando o fato de
Niterói ser uma cidade insuportável e Teresópolis ser basicamente encantadora
para o meu pessoal e intransferível gosto.
Mas ainda quero
falar sobre o tarô. Quando surgiu a ideia de me mudar, fiz um jogo para saber
como seria uma eventual mudança para Teresópolis. Não vou entrar em detalhes de
quais cartas saíram, mas a mensagem era clara: eu devia mudar, seria bom mudar,
mas a mudança em si seria dispendiosa e problemática, ainda que não trágica. A
mudança em si traria problemas.
Meu lado
catastrofista entrou em ação e imaginei males mil, que felizmente não se
concretizaram. Mas vários pequenos transtornos ocorreram, como a luz ser
cortada por engano da ínfima Ampla (companhia de eletricidade — já estava paga
— e eu descobrir isto ao fazer a primeira parte da mudança, em um domingo,
quando vim para cá de carro com os gatos, enquanto a mudança toda ficou no Rio
para seguir com a transportadora e Alessandro na segunda-feira. Só que não seguiu.
A transportadora pisou em variadas bolas, nem vale a pena me deter no assunto.
O fato é que a mudança chegou no final da tarde de terça-feira, e houve todo um
estresse no sentido de rediscutir o preço do serviço, já que um contrato havia
sido assinado e a parte deles não fora cumprida a contento.
Ah, mas isso pode acontecer em qualquer
mudança, você pode estar pensando. É verdade. Mas eu já mudei de casa quase
duas dezenas de vezes na vida e jamais vi nada tão caótico (ainda que não
trágico) quanto minha mudança para Teresópolis. E antes as cartas sempre
indicavam mudanças tranquilas (e tranquilas elas foram). Até o momento em que
indicaram uma mudança conturbada, ainda que sem grandes sequelas — e foi isso
que aconteceu. Para mim, este conjunto de exemplos que estou apresentando se
traduz como provas concretas. São
coisas vivenciadas, não são teorias e nem histórias que ouvi dizer. E não
importa como funciona, ou por quê funciona, ao menos não no
momento. Em algum ponto da jornada humana, será possível conhecer os mecanismos
que estão em ação em processos como os da numerologia, da astrologia e do tarô.
Assim como já é possível compreender tanta coisa considerada inatingivelmente
arcana até dois, três anos atrás.
Em suma: acreditar em técnicas esotéricas não
implica necessariamente ser um “esquisotérico” (aquele bobo que acredita em
fadinhas e duendes comprados no Mundo Verde, ou então aquela debilóide que diz
“sou meia bruxa”.). Acreditar nessas técnicas pode implicar tão somente
utilizá-las com sucesso, não depositar fé
nelas e inventar motivos para justificá-las. Da mesma forma como se utiliza a
medicina, que está sempre negando a si própria e se reconstruindo e
reinventando.
O que aliás me
leva a outro assunto a ser tratado em outro post: o conhecimento esotérico
precisa de mais reinvenção e menos tradição.
Johann Heyss, 8
de abril de 2013









































