8 de abr de 2013

Astrologia, numerologia e o mingau na cabeça


Outro dia vi um desses compartilhamentos de Facebook atribuindo a Paulo Francis a citação “quem acredita em astrologia só pode ter mingau na cabeça”, ou algo assim. A frase não me ofendeu em nada. Primeiro, porque eu não acredito em astrologia, assim como não acredito na medicina. Não sou um homem de fé. Fé é uma coisa complicada, que geralmente leva a desastres psíquicos, espirituais e sociais. Tenho minhas ressalvas contra a fé. Procuro acreditar apenas naquilo em que acho que devo acreditar para fins de criação mental (ou seja, para projetar o futuro desejado através de formas-pensamento que abram caminho para atitudes concretas). Mas, para não cair em mistificações, evito acreditar em coisas externas a mim. O que não significa necessariamente desacreditar — sou agnóstico, afinal — e sim que nada funciona comigo que dependa de fé cega. Naturalmente tenho cá minha simpatias e antipatias, mas procuro ficar atento para não afetar meu julgamento favorecendo aquilo com que simpatizo, e nem desfavorecendo aquilo com que antipatizo. Como era de se esperar, raramente tenho sucesso nesse projeto que poderia ser batizado de Imparcialidade Radical, mas vamos em frente.


Voltando à frase atribuída a Paulo Francis, ela não me ofendeu enquanto estudioso e praticante de numerologia, tarô e ocultismo em geral, mas serve de estopim para uma discussão sobre até que ponto utilizar técnicas não-científicas (no sentido cartesiano do termo) implica negar a ciência ou afirmar superstições. A citação se desqualifica já de cara ao ser atribuída a uma criatura execrável como Paulo Francis. Não ficarei surpreso se ele for de fato autor da frase. Mingau na cabeça tem quem acredita em Paulo Francis, porque né? Trata-se de um dos jornalistas mais caluniadores de que se tem notícia no “grande” jornalismo brasileiro. Quer saber uma das várias razões de eu ter Francis em tão baixa conta? É só dar um Google “Paulo Francis” + “Tônia Carrero” para ter um indigesto tira-gosto.


Bem, acho razoável concluir que é necessário ter mingau na cabeça para acreditar em qualquer coisa que não ofereça motivos concretos para que nela se acredite, e acreditar no que se comprova na prática é constatação, não crença. É possível crer em algo real ou em algo irreal — é possível acreditar em fantasias. Mas vamos combinar que constatar significa, de acordo com o dicionário, “determinar ou confirmar a veracidade de (fato, afirmação etc.); averiguar, testificar”.


Então posso dizer que eu não acredito em astrologia. Não acredito em numerologia, não acredito em tarô. Não acredito em voar de avião. Aliás, acho inacreditável voar de avião. Mas a gente voa de avião, é fato, ainda que pareça inacreditável. Da mesma forma, a astrologia funciona. A numerologia funciona. E o tarô também. Claro que funcionar pode ser subjetivo. Funciona para quê? Funciona para apontar questões, para sugerir maneiras e facilitar o autoconhecimento. Achou muito vago para ter alguma relação com motivos concretos? É, então vou dar um exemplo real e recente.


Sou carioca, morei no Rio quando bebê, quando adolescente e a partir dos 31 anos (estou com quarenta e quatro, apesar de agora ver nas redes sociais sujeitos que costumavam ser dez anos mais velhos jurando não ter mais de 38 com suas caras de empada de botox). Morei também em Teresina, passei duas temporadas longas em Nova York e acabo de me mudar para Teresópolis, cidade da serra fluminense. Eu jamais gostei do Rio de Janeiro, jamais me adaptei ao espírito da cidade por “n” razões que não vamos discutir agora. A verdade é que a cidade me fazia mal, mas eu acabava “tendo” que morar nela, pois sou casado, e o Alessandro sempre trabalhou no Rio. Por razões que também não interessam a este post, finalmente resolvi que havia chegado a hora de subir a serra, e Alessandro concordou. O impulso que eu sentia era forte, algo dentro de mim estava me empurrando para sair do Rio de Janeiro. Porque chega, né? Não dava mais para ficar destilando chororô de chorume ad infinitum, ficou fisicamente impossível aguentar meu desagrado para com a cidade maravilhosa, cheia de encantos mil na puta que pariu, que eu jamais os vi.


E o que isso tem a ver com acreditar ou constatar whatever the hell about astrologia, numerologia etc.?


Bem, eu naturalmente consulto meu mapa numerológico — tanto o mapa natal quanto o mapa anual, que se faz voltado para um ano em questão. E também jogo tarô. Desde agosto do ano passado (2012) estou vivendo um ano pessoal 6, que se estenderá até agosto deste ano (2013). O ano pessoal 6 sugere o surgimento de questões familiares (no comments), questões de saúde relacionadas a fundo emocional/psicossomático (de setembro do ano passado a janeiro deste ano ressurgiram alergias e asma que eu não tinha desde criança — já devidamente controladas, thank you very much, e seguramente despertadas por fatores psicológicos) e questões relativas à moradia (eu estava me sentindo sufocado no imóvel e na cidade em que morava, e durante o ano 6 me mudei para outra cidade).


Antes disso, vivi um ano 5, que implica uma série de coisas que são particulares demais para comentar aqui, mas confirmam o simbolismo do número. E isso acontece sempre, os acontecimentos parecem evoluir em sincronia com a evolução do meu mapa numerológico. E acho que é exatamente isso que faz o mapa numerológico (ou astrológico): reflete quem somos e o que nos ocorre. Estudar o mapa ajuda a compreender o momento evolutivo de cada um e suas interações com o ambiente e outras pessoas e seres.


Meu próximo ano será regido pelo número 7, e neste aspecto estou interagindo com meu mapa, “jogando” com ele, pois Teresópolis é uma cidade que combina com muitos aspectos do simbolismo de 7. Aqui posso me concentrar mais em minhas criações musicais e literárias, em minhas traduções, e mesmo assim estou a menos de duas horas do Rio e do aeroporto internacional — não muito diferente de quando eu morava em Niterói, tirando o fato de Niterói ser uma cidade insuportável e Teresópolis ser basicamente encantadora para o meu pessoal e intransferível gosto.


Mas ainda quero falar sobre o tarô. Quando surgiu a ideia de me mudar, fiz um jogo para saber como seria uma eventual mudança para Teresópolis. Não vou entrar em detalhes de quais cartas saíram, mas a mensagem era clara: eu devia mudar, seria bom mudar, mas a mudança em si seria dispendiosa e problemática, ainda que não trágica. A mudança em si traria problemas.


Meu lado catastrofista entrou em ação e imaginei males mil, que felizmente não se concretizaram. Mas vários pequenos transtornos ocorreram, como a luz ser cortada por engano da ínfima Ampla (companhia de eletricidade — já estava paga — e eu descobrir isto ao fazer a primeira parte da mudança, em um domingo, quando vim para cá de carro com os gatos, enquanto a mudança toda ficou no Rio para seguir com a transportadora e Alessandro na segunda-feira. Só que não seguiu. A transportadora pisou em variadas bolas, nem vale a pena me deter no assunto. O fato é que a mudança chegou no final da tarde de terça-feira, e houve todo um estresse no sentido de rediscutir o preço do serviço, já que um contrato havia sido assinado e a parte deles não fora cumprida a contento.


Ah, mas isso pode acontecer em qualquer mudança, você pode estar pensando. É verdade. Mas eu já mudei de casa quase duas dezenas de vezes na vida e jamais vi nada tão caótico (ainda que não trágico) quanto minha mudança para Teresópolis. E antes as cartas sempre indicavam mudanças tranquilas (e tranquilas elas foram). Até o momento em que indicaram uma mudança conturbada, ainda que sem grandes sequelas — e foi isso que aconteceu. Para mim, este conjunto de exemplos que estou apresentando se traduz como provas concretas. São coisas vivenciadas, não são teorias e nem histórias que ouvi dizer. E não importa como funciona, ou por quê funciona, ao menos não no momento. Em algum ponto da jornada humana, será possível conhecer os mecanismos que estão em ação em processos como os da numerologia, da astrologia e do tarô. Assim como já é possível compreender tanta coisa considerada inatingivelmente arcana até dois, três anos atrás.


Em suma: acreditar em técnicas esotéricas não implica necessariamente ser um “esquisotérico” (aquele bobo que acredita em fadinhas e duendes comprados no Mundo Verde, ou então aquela debilóide que diz “sou meia bruxa”.). Acreditar nessas técnicas pode implicar tão somente utilizá-las com sucesso, não depositar fé nelas e inventar motivos para justificá-las. Da mesma forma como se utiliza a medicina, que está sempre negando a si própria e se reconstruindo e reinventando.


O que aliás me leva a outro assunto a ser tratado em outro post: o conhecimento esotérico precisa de mais reinvenção e menos tradição.






Johann Heyss, 8 de abril de 2013

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