23 de mai de 2014

Felicidade, Amor de Casados, Artistas, Marrons Glacés e outros tópicos intrigantes na visão de Aleister Crowley


A palavra “eterno” e o termo “para sempre” são usados de maneira muito equivocada. Quando uma pessoa diz que quer “felicidade eterna”, está se referindo a um ciclo de eventos variados e sempre capazes de estimular emoções agradáveis, i. e., as pessoas querem que o tempo continue exatamente como ele se lhes apresenta quando elas estão livres das contingências de acidentes como a pobreza, a doença e a morte. Contudo, é possível a experiência de um estado eterno, caso o termo seja interpretado com sabedoria. Pode-se acender a “flamman aeternae caritatis”, por exemplo; pode-se experimentar um amor de fato eterno. Esse amor não pode ter relação alguma com fenômenos condicionados ao tempo. Da mesma forma, a “alma imortal” de uma pessoa é algo totalmente diverso de suas vestes mortais. Essa Alma é uma Estrela específica, com qualidades peculiares, é claro; mas são todas qualidades “eternas”, e fazem parte da natureza da alma. Sendo essa alma uma consciência monística, não pode apreciar a si mesma e suas próprias qualidades, como previamente explicado; de modo que ela percebe a si mesma pelo estratagema da dualidade, com as limitações de tempo, espaço e causalidade. A “Felicidade” do Amor de Casados e de comer marrons glacés é a expressão concreta, externa e não-eterna da idéia abstrata interna correspondente, assim como qualquer triângulo é uma imagem imperfeita e parcial da idéia de um triângulo. (Não vem ao caso se consideramos o “Triângulo” uma coisa irreal, inventada por conveniência para incluir todos os triângulos reais, ou vice-versa. Uma vez que surge a idéia do Triângulo, os triângulos reais se ligam à ideia, como dito acima.)
A pessoa não deseja sequer uma extensão comparativamente breve desses estados “reais”. O Amor de Casados, ainda que autorizado por toda a existência, costuma ficar intolerável depois de um mês; e marrons glacés ficam enjoativos após o consumo do quinto ou sexto quilo. Mas a “Felicidade”, eterna e informe, não fica menos agradável quando essas formas de felicidade deixam de dar prazer. O que acontece é que a Ideia deixa de encontrar sua imagem naquelas imagens específicas; ela começa a perceber as limitações — que não são a Ideia e inclusive negam a Ideia — tão logo se esvai sua alegria original por conseguir alcançar a autoconsciência. A Ideia ganha consciência da imperfeição externa dos marrons glacês; eles deixam de representar sua natureza infinitamente variada. E assim a Ideia os rejeita, e cria uma nova forma de si mesma, como Camisolas com fitas de tom amarelo claro, ou cigarros de tabaco Amber Leaf.
Da mesma forma, um poeta ou um pintor que deseja expressar a Beleza se sente impelido a escolher uma forma específica; a qual, com sorte, consegue gratificá-lo de início; mas cedo ou tarde ele descobre que deixou de incluir certos elementos de si mesmo, e deve então expressá-los em outro poema ou outra pintura. Ele talvez saiba que nunca poderá fazer mais do que apresentar uma parte da possível perfeição, e ainda assim através de uma imagística imperfeita, mas poderá ao menos expressar seu máximo dentro dos limites dos instrumentos mentais e sensoriais de seu também inadequado símbolo do Absoluto, seu veículo de encarnação humana.
Estas formas sofrem do mesmo defeito das outras; em última instância, a “Felicidade” se desgasta no esforço de inventar imagens novas, e fica desencorajada e insegura. Poucos têm sagacidade suficiente para passar direto pela generalização a partir do fracasso de algumas imagens de si mesmos, e reconhecer que todas as formas “reais” são imperfeitas; mas tais indivíduos costumam rejeitar todo o procedimento, enojados, e ansiar pelo estado “eterno”. Mas, como já sabemos, trata-se de um estado incapaz de compreensão; e a Alma, ao entender isto, só vê razão para a “Cessação” de todas as coisas; suas criações não estão mais acima de suas próprias tendências a criar. E assim a Alma suspira pelo Nirvana. 

(...)

Eis o segredo da Alma do Artista. Ele sabe que é um Deus, dos Filhos de Deus; ele não tem medo ou vergonha de se mostrar digno da semente de seu Pai. Ele tem orgulho do mais precioso privilégio desse Pai, e o honra, bem como a si mesmo, ao usá-lo. Ele aceita sua família como de sua própria estirpe real; todos são tão principescos quanto ele próprio. Mas ele não seria filho de seu Pai se não tivesse descoberto para si uma Forma adequada para se expressar através de múltiplas reproduções de sua Imagem. Ele deve admirar a si próprio em muitos trajes, todos enfatizando determinada elegância ou excelência em si mesmo que, de outra forma, eludiriam sua  deferência se escondidas e abafadas na harmonia de seu coração. Esta Forma a servi-lo deve lhe parecer a suavidade personificada; com a exata elasticidade para se adaptar às saliências mais fortes e mais sutis notáveis, mas sendo como o aço que resiste a toda pressão que não venha de si mesmo, e para reter e reproduzir com precisão a imagem que seu ácido agarra com os dentes em sua superfície. Não pode haver erro, nem irregularidade, nem granulação, nem distorção em sua substância; ela deve ser brilhante e clara, puro metal de boa qualidade.  
E ele deve amar sua Forma escolhida, amá-la com temeroso fervor; ela é a face de seu Destino que anseia por seu beijo, e seus olhos ardem e flamejam com Enigma; ela é a sua morte, seu corpo é o caixão onde ele apodrecerá e federá, ou se contorcerá em sonhos amaldiçoados, auto-escravizado, ou de onde se erguerá em auto-renovada incorruptibilidade, imortal e igual, preenchendo a si próprio com e por ela, borrifando estrelas cintilantes por todo o espaço, seus filhos e filhas, cada estrela uma imagem de sua própria infinitude tornada manifesta, índole após índole, pela magia da Forma, para moldá-lo quando sua paixão vier a derreter seu metal.
Assim, então, deve trabalhar todo Artista. Primeiro, ele deve encontrar a si mesmo. Depois, deve encontrar a forma adequada para se expressar. Então ele deve amar essa forma como forma, adorando-a, entendendo-a, e dominando-a, com a mais meticulosa atenção, até que ela (aparentemente) se adapte a ele com grande elasticidade, e responda apurada e pertinentemente, com o automatismo inconsciente de um órgão aperfeiçoado pela evolução, à sua mais sutil sugestão, e ao seu gesto mais gigantesco. 
Em seguida, ele deve se entregar por completo a essa Forma, ele tem que se aniquilar totalmente em todo ato de amor, trabalhando dia e noite para perder-se no êxtase do ato, de modo a não deixar um só átomo não-consumido na fornalha de sua fúria, como há tanto fizera o Pai que o criou. Ele deve se perceber por inteiro na integração do infinito Panteão de imagens; pois se ele falhar em formular uma faceta de si, esta perda o levará a um falso conhecimento de si.
É claro que não há diferença prática entre o artista como aqui delineado e aquele que segue o “Caminho do Tao”, ainda que o último encontre a perfeição em sua relação existente com seu meio-ambiente, e o primeiro crie uma perfeição privada de caráter peculiar e secundário. Nós devemos chamar um de filho do Absoluto, e o outro de filha.
Mas o Artista, apesar de seu Trabalho — as imagens de si mesmo na Forma que ele ama — ser menos perfeito do que o Trabalho de seu Pai, pois ele só pode expressar um ponto de vista particular, e através de um tipo de técnica, não deve ser considerado inútil por isto, da mesma forma que um Atlas não é inútil apenas por apresentar uma fração dos fatos da geografia por meio de certas convenções grosseiras.
O Artista distrai nossa atenção da Natureza, cuja imensidão nos atordoa de forma que ela parece incoerente e ininteligível para sua interpretação de si mesmo, e suas relações com vários fenômenos da natureza expressos em uma linguagem mais ou menos comum a todos nós.  
Quanto menor o artista, e quanto mais estreita sua visão, e quanto mais vulgar seu vocabulário, e quanto mais banais suas imagens; mais facilmente ele será reconhecido como líder. Para ser aceito e admirado, ele terá de dizer exaustivamente aquilo que todos sabemos, mas não dizemos, e deverá dizê-lo de forma simples e em linguagem clara, com um pouco mais de ênfase e eloquência do que estamos acostumados a ouvir; e deverá nos agradar e nos lisonjear com o que diz, procurando aplacar nossos medos e estimular nossas esperanças e nossa auto-estima. Quando um Artista — seja em astronomia como Copérnico, em antropologia como Ibsen, ou em anatomia como Darwin — reúne um conjunto de fatos grande demais, recôndito demais ou “lamentável” demais para receber aquiescência imediata de todos; quando ele apresenta conclusões que vão de encontro à crença ou ao preconceito do povo; quando ele emprega uma linguagem que não é de conhecimento geral — nesses casos ele deve se dar por satisfeito em falar para poucos. Ele deve aguardar o momento em que o mundo venha a despertar para o valor de seu trabalho. Quanto maior ele for, mais individual e menos compreensível parecerá ser, ainda que na realidade seja mais universal e mais simples do que qualquer um. Ele deve ser indiferente a qualquer coisa que não seja sua própria integridade na realização e na imaginação de si mesmo.


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There is great confusion of thought in the use of the word "eternal," and the phrase "for ever." People who want "eternal happiness" mean by that a cycle of varying events all effective in stimulating pleasant sensations; i.e., they want time to continue exactly as it does with themselves released from the contingencies of accidents such as poverty, sickness and death. An eternal state is however a possible experience, if one interprets the term sensibly. One can kindle "flamman aeternae caritatis"," for instance; one can experience a love which is in truth eternal. Such love must have no relation with phenomena whose condition is time. Similarly, one's "immortal soul" is a different kind of thing altogether from one's mortal vesture. This Soul is a particular Star, with its own peculiar qualities, of course; but these qualities are all "eternal," and part of the nature of the Soul. This Soul being a monistic consciousness, it is unable to appreciate itself and its qualities, as explained in a previous entry; so it realizes itself by the device of duality, with the limitations of time, space and causality. The "Happiness" of Wedded Love or eating Marrons Glaces is a concrete external non-eternal expression of the corresponding abstract internal eternal idea, just as any triangle is one partial and imperfect picture of the idea of a triangle. (It does not matter whether we consider "Triangle" as an unreal thing invented for the convenience of including all actual triangles, or vice versa. Once the idea Triangle has arisen, actual triangles are related to it as above stated).
One does not want even a comparatively brief extension of these "actual" states; Wedded Love though licensed for a lifetime, is usually intolerable after a month; and Marrons Glaces pall after the first five or six kilogrammes have been consumed. But the "Happiness," eternal and formless, is not less enjoyable because these forms of it cease to give pleasure. What happens is that the Idea ceases to find its image in those particular images; it begins to notice the limitations, which are not itself and indeed deny itself, as soon as its original joy in its success at having become conscious of itself wears off. It becomes aware of the external imperfection of Marrons Glaces; they no longer represent its infinitely varied nature. It therefore rejects them, and creates a new form of itself, such as Nightgowns with pale yellow ribbons or Amber Cigarettes.
In the same way a poet or painter, wishing to express Beauty, is impelled to choose a particular form; with luck, this is at first able to recompense in him what he feels; but sooner or later he finds that he has failed to include certain elements of himself, and he must needs embody these in a new poem or picture. He may know that he can never do more than present a part of the possible perfection, and that in imperfect imagery; but at least he may utter his utmost within the limits of the mental and sensory instruments of his similarly inadequate symbol of the Absolute, his vehicle of human incarnation.
These suffer from the same defects as the other forms; ultimately, "Happiness" wearies itself in the effort to invent fresh images, and becomes disheartened and doubtful of itself. Only a few people have wit enough to proceed to generalization from the failure of a few familiar figures of itself, and recognize that all "actual" forms are imperfect; but such people are apt to turn with disgust from the whole procedure, and to long for the "eternal" state. This state is however incapable of realization, as we know; and the Soul understanding this, can find no good but in "Cessation" of all things, its creations no more than its own tendencies to create. It therefore sighs for Nibbana.

(...)

Such is the secret of the Soul of the Artist. He knows that he is a God, of the Sons of God; he has no fear or shame in showing himself of the seed of his Father. He is proud of that Father's most precious privilege, and he honours him no less than himself by using it. He accepts his family as of his own royal stock; every one is as princely as he is himself. But he were not his Father's son unless he found for himself a Form fit to express himself by multiplex reproductions of his Image. He must admire himself in many costumes, each emphatic of some elected elegance or excellence in himself which would otherwise elude his homage by being hidden and hushed in the harmony of his heart. This Form which shall serve him must be softness' self to his impress, with exact elasticity adapting itself to the strongest and subtlest salients, yet like steel to resist all other stress than his own, and to retain and reproduce surely and sharply the image that his acid bites into its surface. There must be no flaw, no irregularity, no granulation, no warp in its substance; it must be smooth and shining, pure metal of true temper.
And he must love this chosen Form, love it with fearful fervour; it is the face of his Fate that craves his kiss, and in her eyes Enigma blazes and smoulders; she is his death, her body his coffin where he may rot and stink, or writhe in damned dreams, self-slain, or rise in incorruption self-renewed, immortal and identical, fulfilling himself wholly in and by her, splashing all space with sparkling stars his sons and daughters, each star an image of his own infinity made manifest, mood after mood, by her magick to mould him when his passion makes molten her metal.
Thus then must every Artist work. First, he must find himself. Next, he must find the form that is fitted to express himself. Next, he must love that form, as a form, adoring it, understanding it, and mastering it, with most minute attention, until it (as it seems) adapts itself to him with eager elasticity, and answers accurately and aptly, with the unconscious automatism of an organ perfected by evolution, to his most subtlest suggestion, to his most giant gesture.
Next, he must give himself utterly up to that Form; he must annihilate himself absolutely in every act of love, labouring day and night to lose himself in lust for it, so that he leave no atom unconsumed in the furnace of their frenzy, as did of old his Father that begat him. He must realize himself wholly in the integration of the infinite Pantheon of images; for if he fail to formulate one facet of himself, by lack thereof will he know himself falsely.
There is of course no ultimate difference between the Artist as here delineated and him who follows the "Way of the Tao", though the latter finds perfection in his existing relation with his environment, and the former creates a private perfection of a peculiar and secondary character. We might call one the son, the other the daughter, of the Absolute.
But the Artist, though his Work, the images of himself in the Form that he loves, is less perfect than the Work of his Father, since he can but express one particular point of view and that by means of one type of technique, is not to be thought useless on that account, any more than an Atlas is useless because it presents by means of certain crude conventions a fraction of the facts of geography.
The Artist calls our attention away from Nature, whose immensity bewilders us so that she seems incoherent, and unintelligible, to his own interpretation of himself, and his relations with various phenomena of nature expressed in a language more or less common to us all.
The smaller the Artist, the narrower his view, the more vulgar his vocabulary, the more familiar his figures, the more readily is he recognized as a guide. To be accepted and admired, he must say what we all know, but have not told each other till it is tedious, and say it in simple and clear language, a little more emphatically and eloquently than we have been accustomed to hear; and he must please and flatter us in the telling by soothing our fears and stimulating our hopes and our self-esteem.
When an Artist — whether in Astronomy, like Copernicus, Anthropology, like Ibsen, or Anatomy, like Darwin — selects a set of facts too large, too recondite, or too "regrettable" to receive instant assent from everybody; when he presents conclusions which conflict with popular credence or prejudice; when he employs a language which is not generally intelligible to all; in such cases he must be content to appeal to the few. He must wait for the world to awake to the value of his work.
The greater he is, the more individual and the less intelligible he will appear to be, although in reality he is more universal and more simple than anybody. He must be indifferent to anything but his own integrity in the realization and imagination of himself.

The Law Is For All, Aleister Crowley (New Falcon Publications)
Tradução: Johann Heyss


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