28 de out de 2010

Entrevista sobre o Oráculo dos Números


O site da editora Nova Era/Record acaba de publicar uma entrevista comigo, na qual falo principalmente sobre o Oráculo dos Números recém-lançado. O link é este AQUI, mas reproduzo o texto abaixo.

Johann Heyss - O oráculo dos números

“O oráculo estimula mais a intuição e o lado mágico da pessoa”

Com base em seu profundo conhecimento da numerologia, Johann Heyss lança o livro O Oráculo dos Números, da editora Nova Era, atribuindo uma função oracular inédita a essa área de estudo. Heyss propõe a busca de um oráculo simples e imediato, livre de cálculos matemáticos, usando os números como símbolos: “tanto no oráculo dos números quanto no I-Ching você se concentra em uma pergunta e sorteia um número que traz a resposta em forma de conselho ou reflexão”. O objetivo do estudo numerológico é exatamente auxiliar no autoconhecimento: “Quem se conhece e tem vontade firme sabe onde estão seus pontos fracos e fortes e pode lidar com eles no sentido de se fortalecer e se superar”.

Além de O Oráculo dos Números você é autor de Iniciação à Numerologia, O que é numerologia?, O livro dos Números e O tarô de Thoth. Qual a função da numerologia e como você descobriu o interesse por ela?
A função da numerologia é estimular a reflexão e o autoconhecimento. O interesse nasceu muito espontaneamente, aos quinze anos de idade, ao colecionar os fascículos de uma coleção chamada A Sua Sorte, que apresentava o bê-a-bá das artes divinatórias e esotéricas, dentre elas a numerologia. Por alguma razão me encantei com aquela visão dos números como símbolos, foi uma espécie de resgate mágico de uma viagem que eu tinha com os números quando estava sendo alfabetizado. Eu atribuía personalidades aos números, achava que o 3 tinha um jeito “saidinho” e que o 4 era mais “certinho” e depois comecei a tomar certa antipatia pelos números à medida que fui crescendo e aprendendo (ou melhor, tentando aprender) cálculos matemáticos mais elaborados. Ao conhecer a numerologia tive um flashback daquela época tão distante, e me lembrei também que, por volta dos cinco anos, quando eu freqüentava a alfabetização, costumava dizer que quando crescesse ia ser “músico e matemático”. Foi um resgate do qual só me dei conta integralmente mais ou menos uma década depois.

Você possui uma pesquisa de mais de 20 anos e que está em constante processo de atualização. De que forma começou a aprofundar esse conhecimento?
Eu sou autodidata em quase tudo que faço, e além disto tenho tendência a questionar, reformular e dar toques muito pessoais em todos os projetos nos quais me envolvo. O aprofundamento nasceu disto, pois ao questionar e reformular eu acabo precisando me aprofundar; examinar a teoria e testar a prática. Além do que, meus interesses são muito variados não só dentro do esoterismo (onde pesquiso também oráculos e magia de variados tipos) como dentro da literatura, da música, da área de tradução e línguas. Uma coisa acaba levando à outra, e um leque mais amplo de interesses acaba gerando uma forma mais abrangente de estudar e absorver conhecimento. Fui testando vários sistemas numerológicos diferentes, testando e aproveitando o que fazia sentido e dava resultado, e descartando o que se mostrava inconsistente. Durante exatos dez anos trabalhei com consultas de numerologia e tarô, e esta prática me permitiu testar efetivamente o alcance e o potencial do mapa numerológico. Nesta época publiquei Iniciação à Numerologia, que depois foi reeditado como O Que é Numerologia, onde apresento essa nova abordagem do mapa numerológico. Depois parei de trabalhar com consultas, por entender que se fechava um ciclo e que a partir de então o ideal seria me concentrar nos estudos, nos livros e nos cursos e workshops, alcançando assim mais pessoas do que em consultas particulares, e facilitando para que estas pessoas se desliguem do papel do consultor e busquem no autoconhecimento e na reflexão as respostas que buscam, usando os números como uma linguagem simbólica para acessar esse conhecimento de si mesmas. O resultado de estudos mais variados e aprofundados veio a público em meu segundo trabalho, O Livro dos Números, que traz uma abordagem complexa e detalhada do simbolismo dos números e de suas associações com outros conhecimentos esotéricos. E finalmente a busca de um oráculo simples e imediato, livre de cálculos matemáticos, usando os números como símbolos, deu origem ao Oráculo dos Números.

Neste novo livro, você propõe o uso complementar dos números como oráculos. Poderia explicar a relação entre estes dois saberes?
Os números podem ser vistos como símbolos, assim como os planetas, as cores etc. Varetas, moedas e búzios, entre tantos outros objetos, são usados como símbolos em oráculos. Então me ocorreu: como é que ninguém inventou ainda um oráculo usando os números, como uma espécie de bingo? Se as pessoas sorteiam uma runa, por exemplo, e lá encontram um símbolo com uma orientação, por que não sortear um número e interpretá-lo de acordo com seu significado simbólico? Se a runa Kano significa fogo e abertura, o número 1 também significa a mesma coisa. Sendo que o numero tem a vantagem de estar em toda parte; em qualquer lugar você pode conseguir papel e caneta para rabiscar e rasgar e sortear o número que traz orientação.
A diferença essencial entre o oráculo dos números e a numerologia é a mesma diferença que existe entre o I-Ching e a astrologia; tanto no oráculo dos números quanto no I-Ching você se concentra em uma pergunta e sorteia um número que traz a resposta em forma de conselho ou reflexão, enquanto a astrologia e a numerologia são formas de analisar uma personalidade e a evolução de sua vida através de cálculos matemáticos a partir de informações definitivas como nome completo e/ou data e hora de nascimento. O oráculo estimula mais a intuição e o lado mágico da pessoa, enquanto o mapa tem mais a ver com o lado analítico e intelectual.

O Oráculo dos Números é próprio para a atmosfera urgente do século XXI, e um convite à abstração e ao conhecimento interior neste tempo tecnológico e veloz em que vivemos? A mudança do ritmo de vida exige novas formas de voltar-se para si?
Sem dúvida. Vários paradigmas humanos estão mudando rapidamente. Não dá para esperar que as pessoas tenham hoje em dia a mesma disposição interna para um mergulho lento e profundo no conhecimento esotérico como tinham antes. No século passado isso já era complicado, agora então... Isto não significa que as pessoas tenham de se limitar a conhecimentos superficiais e práticas periféricas, pelo contrário. É mais uma questão de abordagem inicial, pois creio que, antes de se aprofundarem em conhecimentos ancestrais, as pessoas das novas gerações precisam ser “fisgadas” por algo imediato, urgente e objetivo. Nesse sentido, o Oráculo dos Números pode ser uma isca para a pessoa tomar gosto pelo conhecimento esotérico e nele se aprofundar.

A numerologia é popularmente conhecida por influenciar a mudança de nomes. Seria esta uma tentativa de mudar o próprio destino?
Eu não considero que mudanças de nome tenham qualquer efeito em termos de numerologia. O estudo numerológico toma por base única e exclusivamente o nome original de registro. Assim como comemorar o aniversário em um dia diferente do nascimento não acarretaria na mudança de signo astrológico, mudar de nome não modifica nem influencia em rigorosamente nada. Mas o próprio conhecimento do mapa implica uma tentativa de mudar o próprio destino. Conhecer o potencial do futuro é negociar esse potencial e, portanto, transformá-lo. Por isso não existe essa coisa de previsão de destino; o objetivo é exatamente ajudar a construir o destino.

Além de ser reconhecido pelo estudo da numerologia você é cantor e compositor. A numerologia ajuda na criação musical? E o contrário?
Eu tenho uma relação indissociável com o símbolo dos números, e por isso existe influência de um campo no outro, sim. Meus discos têm conceitos ligados aos números (o primeiro disco, Look Carefully, é mais yang, mais número 1; o segundo, The Blue Sea, é água pura, como convém ao número 2; e o terceiro, Psychosamba, é colorido e vibrante como convém ao número 3. No momento estou preparando o quarto, que segue esta lógica. Também a ordem das músicas nos discos segue uma lógica numerológica. Por sua vez, a música influencia na numerologia na hora de escolher pessoas públicas para estudar seus nomes e datas de nascimento. Em meus livros analiso os mapas de músicos famosos como John Lennon e Madonna, por exemplo.

É preciso se concentrar para elaborá-la (a pergunta) pois seu estado de espírito determinará a resposta? Como o livre arbítrio é interpretado no estudo da numerologia?
O livre-arbítrio permeia todo o estudo. O objetivo do estudo numerológico é exatamente auxiliar no autoconhecimento, pois só através do autoconhecimento você pode mudar seu destino. Quem não se conhece está entregue às marés do DNA e do ambiente. Quem se conhece e tem vontade firme sabe onde estão seus pontos fracos e fortes e pode lidar com eles no sentido de se fortalecer e se superar. 

Você é um autor reconhecido internacionalmente, teve obras traduzidas para o inglês, alemão, francês, russo e tcheco. Como a numerologia é recebida nesses países? O sincretismo religioso faz com que os brasileiros se utilizem mais desse conhecimento?
A numerologia é recebida mais ou menos da mesma forma em todos os lugares, até onde eu sei. Mas na França e na Alemanha meus livros têm sido particularmente bem recebidos, o que muito me orgulha devido à tradição e qualidade da literatura esotérica nestes países. De modo geral existe grande desinformação, pois normalmente só é divulgada uma visão da numerologia associando-a a superstição, troca de nomes, números de loteria, previsões de futuro, essas coisas. E eu proponho um uso mais racional e ao mesmo tempo mais intuitivo dos números, e acredito que seja a novidade e o frescor desta abordagem que atraia o interesse das editoras e leitores de outros países, bem como do Brasil mesmo. 

Você teve algum tipo de influência ou formação religiosa? Tem algum interesse em particular por alguma religião?
Fui batizado na Igreja Metodista mas jamais frequentei, fui educado em colégio de padres mas jamais me considerei católico, tive um breve interesse por religiões afro-brasileiras e orientais, já fiz parte de ordens rosacruzes e thelêmicas, e por volta dos 30 anos cheguei à conclusão de que nada disso serve para mim. Cada religião apresenta uma peça verdadeira do quebra-cabeça da existência, mas essas peças isoladas não apenas não fazem sentido em si como induzem ao erro da parcialidade. Acho que uma das características da Nova Era que já estamos vivendo será cada vez mais a vivência religiosa como questão de foro íntimo, assim como a afetividade, a sexualidade etc. As religiões têm sua beleza cultural, mas penso que cada um de nós deve desenvolver uma comunicação direta com o lado espiritual da existência, sem intermediários e os sistemas religiosos são, basicamente, intermediários que já tiveram e ainda têm um papel muito importante na espiritualidade das pessoas, mas creio que este papel esteja diminuindo e vá diminuir cada vez mais dentro de um processo evolutivo espiritual. Posso dizer que me encontro entre o gnóstico e o agnóstico.

Algum novo projeto de publicação em vista? Tem curiosidade de enveredar por outros caminhos do esoterismo?
Como sempre, estou envolvido em diferentes projetos ao mesmo tempo. Estou trabalhando em meu primeiro livro na área de ficção, uma história envolvendo um lado da magia muito pouco explorado e conhecido, e que creio que surpreenderá muitos leitores. Além disso, tenho mais dois livros sobre numerologia quase prontos, um enfocando o mapa numerológico anual e o outro enfocando mapas de casais, uma espécie de correspondente numerológica da sinastria astrológica. Também estou trabalhando em um livro sobre a magia e a filosofia thelêmica divulgada por Aleister Crowley, que é muito popular entre os estudantes de magia e esoterismo, mas infelizmente ainda mal compreendida. Com este livro pretendo fechar minha trilogia sobre Crowley e Thelema, que começou com O Tarô de Thoth e teve prosseguimento na biografia de Crowley que lancei recentemente. Finalmente, pretendo desenvolver (com a ajude de um profissional) softwares para uso da numerologia e do oráculo dos números, mas este é um projeto ainda em fase de planejamento. E no meu blog Além dos Números (http://heyss.blogspot.com/) estou sempre publicando algo novo sobre esses temas.

26 de out de 2010

O Oráculo dos Números na revista Bons Fluidos


Tem uma matéria com chamada de capa na revista BONS FLUIDOS de novembro sobre o ORÁCULOS DOS NÚMEROS. Para quem quiser experimentar o oráculo, a matéria está bem completa e objetiva.

20 de out de 2010

A numerologia e a cabala

Dando prosseguimento à desmistificação deste sistema místico (com ou sem trocadilho, a gosto do freguês) vamos abordar a relação entre a numerologia e a cabala, e desfazer o mito da “numerologia cabalística”.

A numerologia deriva da cabala, é um produto da mesma, ou melhor, da gematria. Portanto, “numerologia cabalística” é de fato um pleonasmo. 




O que é a cabala?   

A cabala é um sistema de misticismo judaico que busca explicar a organização do mundo e suas leis espirituais e materiais. Não obstante ser um sistema místico, a cabala é considerada por muitos um conhecimento altamente racional em sua abordagem. A cabala faz parte da tradição oral judaica, e a data de sua origem é incerta. Um dos primeiros livros sobre o assunto seria o Sefer Yetzirah (Livro da Criação), que data do século VI e cujos primeiros comentários foram escritos por volta do século X. Outro livro importante sobre a cabala é o Bahir (Iluminação), publicado pela primeira vez em 1176 em Provença. Mas a obra considerada mais importante para o misticismo judaico é o Zohar (Esplendor), publicado por um judeu espanhol chamado Moses de Leon, que alegava ter descoberto os originais de tal livro, que segundo alguns teria sido escrito no século dois pelo rabino Shimon bar Yohai. Isto, contudo, veio a se provar falso, tendo sido o livro de fato escrito pelo próprio Moses de Leon e atribuído a um misterioso rabino na ânsia de chamar atenção sobre a obra, além de vendê-la. A despeito da fraude comprovada, o Zohar exerceu e exerce enorme influência nos chamados cabalistas, aqueles que se dedicam ao estudo e prática da cabala. Muitos consideram que, seja quem for que tenha escrito a obra, foi inspirado diretamente por Deus, devido ao rico e profundo conteúdo do livro.

A árvore da vida

A árvore da vida vem a ser uma disposição visual da filosofia cabalística. Esta árvore é a mesma “árvore do conhecimento” citada na Bíblia, no Gênesis. O papel do número na árvore da vida é essencial, já que esta dispõe as emanações que revelam a ligação entre o homem e a divindade. Cada emanação, ou sephira, é representada por um número, que por sua vez representa um princípio ou conceito. São dez sephirot, emanações de Deus divididas em três pilares, e 32 caminhos que ligam as sephirot entre si, representados por letras hebraicas — que também são números. Aí reside o primeiro ponto de ligação entre a numerologia e a cabala: foi da cabala que a numerologia herdou o conceito de que letras e números são, essencialmente, manifestações distintas da mesma energia ou conceito. Isto é mais evidente no caso do alfabeto hebraico, onde letras são ao mesmo tempo números. Desta forma, é fácil entender que a tabela numerológica atribua o valor de 1 à primeira letra, de 2 à segunda, 3 à terceira, e assim por diante. Isto é uma forma de reconciliar as letras e os números, que se encontram amalgamados no alfabeto hebraico. Vale notar que a chamada cabala grega, que não tem base tradicional como a judaica, se baseia nesta mesma idéia, usando o alfabeto grego, o qual, como o hebraico, tem os mesmos caracteres tanto para letras quanto para números.    

E a gematria?

A cabala se divide em várias disciplinas e técnicas. A gematria é uma técnica pela qual se soma as letras de uma palavra ou nome (isto é possível porque, no alfabeto hebraico, as letras são também números) para se extrair um número que a represente. Termos ou nomes com os mesmos números finais seriam correlatos. Em termos mais simples, pode-se dizer que a gematria é a forma judaica/cabalística de numerologia — a qual só faz sentido se aplicada ao alfabeto hebraico. Não há porque se fazer aproximações ou adaptações do hebraico para outra língua, pois a língua hebraica tem seus próprios sons, e não abrange sons e letras do alfabeto latino, por exemplo. Daí que o uso da gematria para quem não é judeu e educado em hebraico seria o mesmo que tentar adaptar o alfabeto japonês para extrair cálculos na língua portuguesa — um disparate.


E qual a relação da gematria com a numerologia?

Sendo a cabala, e a gematria por tabela, objeto de estudo de místicos de todas as filosofias, nacionalidades e credos, inicialmente usava-se o esdrúxulo método de aproximação entre o hebraico e outras línguas para se fazer a conversão das palavras e nomes em números, e assim interpretá-los. Como este método logo se mostrou frustrante e artificial, principalmente porque sons e letras do alfabeto latino/romano tinham de ser omitidos, já que não havia correspondentes em hebraico, naturalmente se chegou à idéia de aproveitar o princípio da gematria, ou seja, a unificação entre letras e números típica do alfabeto hebraico — que é a base da gematria e uma das bases da cabala em si. Assim foi lançada a semente da numerologia, um conhecimento esotérico ocidental e voltado para o alfabeto latino/romano. A numerologia é um sistema moderno e ainda em desenvolvimento, que vem sendo moldado através da pesquisa de estudiosos e praticantes. Pode-se dizer então, que não existe uma numerologia cabalística, e sim que a numerologia em si já é uma ramificação, uma descendente da cabala.

Texto de Johann Heyss. Não reproduza sem mencionar o autor e o blog.