18 de abr de 2012

Questionando a numerologia


Questionar é não apenas saudável como necessário. Tem sempre algo de muito errado com o que não pode ser questionado. Vou lançar três questionamentos que considero essenciais, e convido os leitores a mandarem suas dúvidas, críticas e questionamentos - responderei os mais interessantes e recorrentes aqui no blog mesmo.
   Os questionamentos que selecionei são os seguintes:

1) de onde vem e onde está o ponto de ligação entre os números e as pessoas;
2) como demonstrar a ligação entre números e pessoas; e
3) como definir e isolar as características de cada número? 

   Podemos responder a primeira pergunta recorrendo ao princípio da sincronicidade. De acordo com C. G. Jung, criador do termo, a sincronicidade é um princípio acausal, ou seja, desvinculado do princípio de causa e efeito, o qual por sua vez é a base tanto para o conceito hindu de karma quanto para a ciência contemporânea. Sincronicidade é a correlação entre fatos ou sinais que parecem estar ligados de alguma maneira inexplicável ou irracional, mas cuja irrefutável presença os posiciona além da mera coincidência. É possível dizer que a diferença entre coincidência e sincronicidade é que a primeira vem a ser apenas uma interpretação reducionista da primeira. Claro que há quem ache que a sincronicidade é que seria uma versão fantasiosa da coincidência. Mas até o mais cartesiano dos cientistas usa, mesmo sem perceber, sua própria intuição para chegar a conclusões e desenvolver análises. Seja como for, a essência da sincronicidade se baseia na idéia de que acontecimentos paralelos e não-relacionados em termos racionais teriam valor ou significado equivalente.
   Um exemplo prático da ação do princípio da sincronicidade: um sujeito pega a mesma rota para voltar do trabalho, todos os dias, mas toda vez que ele resolve ou precisa tomar um caminho diferente, é ultrapassado por um carro de um certo modelo, ou de uma certa cor, ou com um certo número na placa. Ou ainda: a pessoa que se diz “perseguida” por um certo número, o qual se encontra na sua identidade, placa do carro, cartão do banco, número da casa, datas marcantes, tudo isso involuntariamente.         
   O princípio da sincronicidade é a base do raciocínio e da construção do mapa numerológico, como se pode perceber. Os números são os símbolos que sinalizam com as qualidades e padrões de determinados seres e eventos, e suas inter-relações. Por isso a “previsão do futuro”, no sentido causal — ainda que falho — que se encontra na meteorologia, por exemplo, é impossível, mas a qualidade de um número presente no nome ou na data de nascimento de fato se relaciona à pessoa ou evento em questão.
   Ao segundo questionamento, como demonstrar a ligação entre os números e as pessoas, só posso responder com a recomendação ao leitor para que experimente a numerologia de maneira prática, isto é, estudando a mesma e aplicando-a, ou submetendo-se à análise de seu mapa numerológico por um bom profissional do ramo. Para identificar este profissional, apresento no final deste capítulo algumas crendices relacionadas à numerologia, as quais o leitor deve evitar. Só a prática responsável e racional da numerologia poderá evidenciar as qualidades do sistema, demonstrando assim a ligação (em termos de sincronicidade) entre os números e as pessoas, a qual tem a mesma natureza que a ligação entre os números e as cores, ou entre as pessoas e os astros, ou entre uma célula e um sistema solar.
   A terceira pergunta - como definir e isolar as características de cada número - precisa de uma resposta mais elaborada que apresente os fundamentos dos números essenciais.


  • Fundamentos dos números essenciais
   O número 0 não é usado pela numerologia isoladamente, apenas como complemento para formação de algarismos, como 01, 10, 20 etc. Isso se dá porque a numerologia se propõe a analisar seres ou eventos que existam, tenham existido ou venham a existir. E o número 0 é a representação da não-existência, um conceito abstrato. 
   O número 1, sendo o primeiro e a representação de algo que é único e original — inclusive no sentido de originar os outros números — só pode corresponder a personalidades ou eventos de destaque, relacionados a egos fortes, singulares, brilhantes, impositivos, determinantes e definidos. Ou seja: a própria qualidade matemática do número 1 leva às conclusões quanto ao significado do número como símbolo. Relaciona-se à masculinidade como qualidade, não necessariamente como gênero.
   O número 2, sendo o resultado da secção do número anterior, representa dualidade, ambiguidade, cooperação, divisão, complementaridade, delicadeza, fraqueza, vacilação, indefinição. Todas estas qualidades são consequência da divisão da unidade. Relaciona-se às qualidade femininas.
   O número 3 vem a ser o resultado das polaridades masculina e feminina, ativa e passiva, clara e escura, ou seja, o resultado do encontro/soma de 1 e 2, o pai e mãe. Sendo assim, é a criança, com todas as qualidades criativas implícitas. Representa o movimento da comunicação, a expansão e o somatório de qualidades um pouco mais complexas que as polaridades opostas de 1 e 2. A imaginação e a projeção de idéias típicas de mentes jovens, olhos de primeira vez.
   O número 4 é a oposição complementar às qualidades lúdicas do número anterior. Representa o estabelecimento da existência, o fundamento da mesma, já que a primeira tríade representa a existência em si. É necessária uma estrutura para que esta existência não pereça e possa se desenvolver, é preciso um teto, um abrigo, uma sustentação. O número 4 representa todo o trabalho e esforço que podem ser maçantes e indesejados, mas que são inevitáveis e indispensáveis. É também o esforço de conservação, da tradição, organização e coerência. Pensemos numa cadeira com quatro pernas, e outra com três, e veremos porque o número 4 é um símbolo de estabilidade.
   O número 5, como não poderia deixar de ser, faz a oposição à estruturação de 4, cujo exagero pode levar à deterioração, pois nada se conserva da mesma forma para sempre, tudo é sujeito a mudanças. O 5 representa o vórtice que se forma no centro do quadrado, e que dá origem ao quinto ponto, dano origem à pirâmide. No seio do pré-estabelecido nascem o questionamento e a rebelião que são a mola propulsora do constante desenvolvimento necessário para o eterno devir. Mudança é a condição elementar de manutenção da vida.
   O número 6, naturalmente, vem trazer de volta o equilíbrio e a estabilidade, mas com um sentido mais abrangente que o número 4, pois o número 6 inclui a estabilidade afetiva e social, além da mera estabilidade material. A estrela de seis pontas, desvinculada de qualquer conotação religiosa, simboliza bem o princípio do número 6 ao equilibrar o superior ao inferior, formando um equilíbrio de polaridades que reflete a tendência à harmonização que é atribuída a 6.
   O número 7 é o produto do vórtice formado através da estabilidade de 6, em processo semelhante ao que ocorre entre os números 4 e 5. O arquétipo de 7 acrescenta uma qualidade espiritual ao arquétipo de 6 (o qual se detém no campo do afeto e da sociabilidade), representando assim a busca do ser humano por algo mais que existência (1, 2 e 3), segurança (4), mobilidade (5) e relações de amor e amizade (6). Este algo mais é a própria individualidade, lapidada pela busca interior e pelo ímpeto de se conhecer e se descobrir.
   Quando a pessoa alcança um nível razoável de autoconhecimento (nível esse que é ainda é, infelizmente, alcançado por poucos) está enfim pronta a lidar com as riquezas do mundo de maneira justa, e de forma a construir uma boa rede kármica — ou, em outras palavras, um bom crédito pessoal como resultado de ações positivas e bem planejadas que levem a riqueza a se expandir, não a ser contida. É isto que o número 8 representa: justiça, ajustamento, equilíbrio, causa e efeito, matéria.
   O número 9 traz a necessidade de movimento e mudança após a vinda de um arquétipo estável como o de 8. Sendo três vezes três, o número 9 é a existência em sua plena manifestação e interação, o intercâmbio de todo tipo de arquétipo ou energia, daí a ausência de preconceitos e a tendência a empurrar o desenvolvimento que se atribui a este número.
     Há outros números combinados, inclusive os números mestres 11 e 22, cujo estudo é parte indispensável para a plena aplicação do mapa numerológico anual e do oráculo dos números. 

Texto de Johann Heyss. Não reproduza sem mencionar o autor e o blog.