2 de set de 2011

As desventuras de Síntese 4 no ano Ano Pessoal 4 featuring Arcano 13: Parte II


A situação, em resumo, era a seguinte: eu não estava regularizado como MEI — logo, não podia emitir nota fiscal. Não podendo emitir nota fiscal, não podia receber pelo trabalho já feito e nem aceitar outros trabalhos para a referida editora. Por outro lado, estava regularizado como microempresa — coisa que jamais solicitei e que a macambúzia funcionária da prefeitura, por falta de robustez cerebral ou mero desejo de zoar, me fez solicitar — e recebendo, e tendo de pagar, todas as taxas extorsivas, pois caso não pagasse, as multas e juros se acumulariam.

Peraí, você pode pensar. Como assim a prestimosa funcionária da solícita prefeitura do Rio de Janeiro o fez solicitar uma licença para funcionar como microempresa? Bem, a resposta é simples. Sou retardado em se tratando de burocracia. Cláusulas e leis me deixam tonto, principalmente quando elas significam que no final serei extorquido. Ciente de minha limitação, levei os inequívocos e-mails da contadora da editora, que deixavam claro que eu procurava me regularizar como MEI e que a única coisa que estava pegando era o meu endereço — antigo, pois eu havia inclusive me mudado. Alertei a sorumbática senhora que eu não entendia nada do assunto e que estava lá em busca de orientação. Talvez seja ingenuidade minha esperar que funcionários da prefeitura sustentada com dinheiro de impostos que eu também pago estivessem lá para me servir, já que ela recebe salário e demais direitos trabalhistas em troca deste serviço. Mas eu pensei mesmo que, ao deixar claro que eu queria apenas resolver a pendência do meu endereço para regularizar meu cadastro como microempreendedor individual, estivesse claro também que eu não estava, em absoluto, querendo abrir uma microempresa.

Quando voltei ao órgão da prefeitura “da minha área” (moro em Santa Teresa, o escritório em questão fica na Tijuca — quando foi que Santa Teresa e Tijuca passaram a compartilhar a mesma “área”?) para pegar meu CNPJ, após achar ter feito tudo que me era requerido para resolver a maldita pendência, a jururu senhora lá não mais estava. Aposentara-se, ao que parece. E me deixara uma bela microempresa — que beleza, eu poderia contratar até dois funcionários. Eu, um tradutor e escritor, com dois funcionários. Quem sabe um para segurar o livro, outro para servir o café. Chocado, expliquei ao funcionário que agora me atendia que não era nada disso que eu havia solicitado. A editora, por sua vez, mal conseguia acreditar na kafkiana situação, pois já haviam ajudado a muitos tradutores com o mesmo processo sem maiores dificuldades. O funcionário me disse que o que eu poderia fazer era pedir cancelamento imediato, mas aí dependeria do juiz. Assinei na hora um documento pedindo cancelamento. Aí já estamos em outubro de 2010, segundo mês de meu ano pessoal 4. Sim, e eu tenho 4 também como número de síntese no mapa numerológico.

Em dezembro, recebo várias guias para pagamento de taxas da “minha” microempresa. Resolvo, enfim, procurar um escritório de contabilidade — um que me foi recomendado, de confiança, como manda o figurino. Um dos rapazes que trabalha para o escritório em questão se incumbe de meu caso e me diz que em questão de um mês deve estar tudo resolvido. Muito bem, então é Natal, a festa cristããã e tudo já fica brega e insuportável demais, procuro esquecer essa problemática toda, esquecer que estou em PLENO ano pessoal 4 e começo a planejar minha viagem para Amsterdam — supostamente eu viajaria em janeiro, para fugir do abominável verão carioca e curtir uma gezelligheid cheia de neve e chuva no meu canto favorito do mundo. Mas não dava para viajar depois da grana que tive de pagar em impostos. Empurrei a viagem para abril: ia festejar o Dia da Rainha entre meus amigos amsterdammers. Na verdade odeio todo tipo de monarquia — a única rainha a quem me curvo é Yoko Ono, The Queen of Noise — mas todos me dizem que o Dia da Rainha é mera desculpa para os holandeses saírem pelas ruas mucho locos curtindo a vida adoidado, o que soa como música para meus ouvidos. Eu procurei não ouvir a voz que vinha do fundo da minha mente, dizendo ano 4 não é bom para viajar, ano 4 não é bom para viajar, ano 4 não é bom para viajar... Ora, se fosse pensar assim, ninguém viajaria em ano 4, argumentei comigo mesmo, fingindo não saber que o ano 4 não impede a viagem de acontecer, apenas imprime a ela determinadas qualidades e características...

No final de janeiro, telefono para o escritório de contabilidade, pronto para receber a grande notícia de que meu CNPJ estava regularizado e eu podia receber o dinheiro da tradução já feita e aceitar novos livros para traduzir. Yes! Eu ia enfiar o pé na jaca holandesa em honra à Rainha Beatrix em abril! Mas... FUEIN FUEIN FUEIN!!!
— Lamentamos informar que o funcionário que estava cuidando do seu caso se desligou do escritório, estamos na estaca zero — disse o dono do escritório em questão, um senhor de seus sessenta e poucos anos, grisalho, baixinho e gorducho. Até me lembrava um pouco meu falecido pai. — O senhor precisa passar aqui para assinar outra procuração para o funcionário que vai assumir seu caso, senão não podemos agir.
— Ahn? Como assim? Por que não me avisaram antes? Eu podia ter providenciado isso logo! O combinado era que em final de janeiro estaria tudo resolvido ou pelo menos encaminhado.
— Por que o senhor não ligou para fazer o acompanhamento do caso?

Era inútil discutir. Claro que me senti ultrajado! Quer dizer que eu é que teria de ficar no pé deles para eles realizarem seu trabalho? Sei lá, eu não gosto que fiquem me ligando todo dia para perguntar se a tradução está pronta, a não ser que o prazo esteja expirando ou já tenha se expirado. Que tipo de profissional sugere que é preciso ficar ligando para ele que se “lembre” de cumprir sua parte do acordo? Onde estamos? Que mundo é esse? Que time é teu? Minha vontade era mandar o escritório inteiro passear em campos floridos ao som de doces canções, mas respirei fundo e resolvi passar lá e assinar outra procuração. Trocar de escritório a essa altura já seria mais complicado. E o escritório fora bem recomendado, desonestos eu sei que não eram. O ideal seria prezarem também pela competência, mas em Terra Brasilis, sabe como é, honestidade não é tudo mas é 100%.

Prontos para a terceira parte de minha patética epopeia? Eu preciso dar uma respirada. Contar a história de um ano pessoal 4 de cabo a rabo não é tarefa das mais fáceis, e eu nem pratico natação, acho um esporte confuso. Amanhã solto aqui a parte III — que nem será a última, aviso logo.

Dag!

Texto de Johann Heyss. Não reproduza sem mencionar o autor e o blog.

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